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EUA e China disputam a IA: o Brasil é árbitro ou torcedor?

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Vinicius Oliveira · 1 de outubro de 2026 · 6 min de leitura

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Por Vinicius Oliveira, fundador da Escola Canivete

Toda vez que você abre o ChatGPT ou qualquer outra ferramenta de IA, existe uma corrida silenciosa acontecendo por trás da tela. De um lado, EUA. Do outro, China. O prêmio é a supremacia em inteligência artificial.

Quem dominar essa tecnologia primeiro, principalmente controlando os chips mais avançados, vai deter uma boa fatia da economia global hoje e pelos próximos anos.

Uma corrida mais antiga do que parece

Essa disputa não é recente. Segundo um artigo do Economics Observatory sobre a indústria chinesa de semicondutores, a China já se estruturava nos anos 90 para ter sua própria indústria de chips. O país lançou o Projeto 908, investindo recursos estatais em fábricas nacionais e atraindo talentos do exterior, especialmente ligados à TSMC, de Taiwan.

Veja a linha do tempo até aqui:

  • 2015: a China lança o plano Made in China e declara abertamente que quer ser superpotência em robótica e IA.
  • 2018 e 2019: o Ocidente começa a adotar medidas de protecionismo, como o bloqueio do 5G da Huawei.
  • 2022: o presidente Joe Biden proíbe empresas chinesas de acessar os chips mais avançados, especialmente as GPUs da Nvidia, hoje a empresa mais valiosa do mundo, com valor de mercado de cerca de US$ 4,8 trilhões.

A lógica é simples: sem os chips mais poderosos, não dá para treinar modelos de IA. Sem treinar modelos, a China ficaria muito atrás na corrida.

O contrabando de chips

De 2022 para cá surgiu um novo tipo de crime organizado: o contrabando de chips. Um esquema de US$ 2,5 bilhões em servidores Nvidia foi desviado para a China via Sudeste Asiático, com documentação falsificada para esconder o destino final.

O caso mais recente é de maio de 2026. Segundo o SpaceMoney, Taiwan prendeu três executivos da Super Micro, suspeitos de levar chips da Nvidia para a China usando o Japão como rota intermediária.

Um reality show geopolítico

Quando Trump assume, a história ganha novos capítulos. Em maio de 2025 ele derruba a AI Diffusion Rule, criada por Biden. Meses depois, volta a fornecer chips para a China, cobrando uma taxa sobre as vendas.

Um verdadeiro reality show geopolítico, com roteiro que muda a cada temporada.

A carta na manga da China: as terras raras

E a China, como reage às restrições? Ela tem um trunfo enorme: detém cerca de 70% das terras raras do mundo, contra apenas 2% dos EUA.

O que isso tem a ver com IA? Tudo. Minerais como neodímio, disprósio e térbio são essenciais na fabricação dos chips que rodam os modelos de inteligência artificial.

A cadeia é simples:

  • Sem terras raras, não tem chip.
  • Sem chip, não tem IA.
  • Ela começa no chão e termina no ChatGPT que você usou hoje de manhã.

Ao perceber o poder que tinha nas mãos, a China também restringiu a exportação desses minerais para os EUA. Xeque-mate.

Uma dependência mútua

Os dois países dependem um do outro. Um coloca a pólvora no revólver do outro, de forma dosada.

Mesmo com a verticalização de toda a cadeia, a produção chinesa de chips da Huawei ainda é marginal: cerca de 200 mil unidades contra aproximadamente 7 milhões da Nvidia em 2025, uma proporção de 1 para 35. A China domina o subsolo, os EUA dominam o silício, e os dois sabem que precisam um do outro para continuar jogando.

Duas internets, duas IAs

Essa guerra não deve terminar com um vencedor absoluto. O que está surgindo é uma divisão geopolítica de mercados: países ocidentais usando tecnologia ocidental, e países na órbita chinesa usando modelos chineses.

Duas internets, duas IAs e dois futuros paralelos.

E o Brasil: no jogo ou na arquibancada?

Aqui começa a parte que deveria nos tirar o sono. O Brasil detém 23% das reservas mundiais de terras raras: cerca de 21 milhões de toneladas, a segunda maior reserva do planeta, atrás apenas da China.

Parece uma mina de ouro, mas na prática não é. Em 2024, o Brasil extraiu 20 toneladas, enquanto a China extraiu centenas de milhares. Nossa participação na extração mundial gira em torno de 1%. É como ser dono do bar e pagar para sentar nele.

O caso Serra Verde

Um exemplo concreto de oportunidade perdida aconteceu em Goiás. A Serra Verde, em Minaçu, é a única produtora em larga escala de terras raras pesadas fora da Ásia.

Veja como a história se desenrolou:

  • Fevereiro de 2026: os EUA emprestaram US$ 565 milhões para a Serra Verde, com a condição de cancelar o contrato com a China, segundo o Rio Times. A chinesa Shenghe Resources, que comprava quase toda a produção, saiu do jogo.
  • Abril de 2026: a americana USA Rare Earth comprou a empresa por US$ 2,8 bilhões, conforme documento registrado na SEC, o órgão regulador do mercado de capitais dos EUA.

O ativo estratégico mais relevante do país trocou de mãos, da China para os EUA, sem que o Brasil tivesse qualquer palavra a dizer. Enquanto isso, o Congresso debatia outras coisas.

A história se repete

Como no ciclo do café, da soja e do minério de ferro, o Brasil volta a commoditizar seus ativos. Perde a chance de verticalizar a cadeia, virar protagonista no Ocidente e gerar renda e empregos em diferentes escalas.

Uma das causas é o imediatismo: propostas com prazo de validade de 4 anos atrapalham qualquer pensamento estratégico de longo prazo. Xi Jinping está no poder desde 2013, com mandato até 2028 e sem limite para sair. A China não troca de plano a cada eleição. O Brasil troca.

Terra rara não é commodity, é soberania

Então, levando isso para a mesa de bar: o Brasil é árbitro ou torcedor? Honestamente, ainda não sei. Mas acredito que ainda dá tempo. Temos o subsolo, o território e a mão de obra.

Falta a decisão política de tratar terras raras como o que elas são: não uma commodity, mas um ativo de soberania nacional.

Esse ativo também não precisa ser só fonte de receita. Com uma estratégia real de verticalização, as terras raras podem virar moeda de troca: parcerias tecnológicas com potências ocidentais, intercâmbio de profissionais e acesso a um know-how que o Brasil hoje não tem.

Você não vende o minério, você troca por tecnologia. Isso separa um país que exporta matéria-prima de um país que constrói indústria.

Árbitro ou torcedor? Você decide. Qual é a sua leitura? Conte para a gente nas redes da Escola Canivete.

Fontes e leitura recomendada

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Sobre o autor

Vinicius Oliveira

Vinicius Oliveira é fundador da Escola Canivete, publicitário formado pelo Mackenzie e cursa MBA em Gestão Comercial na FGV e MBA em Inteligência Artificial Aplicada a Negócios na FAAP. Tem mais de 10 anos de experiência em marketing e vendas e ensina profissionais sem tempo a aplicar IA na rotina de trabalho. Conheça o Vinicius no LinkedIn.

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